Domingo, Março 25, 2007

Encontros e Desencontros with Auras

Várias pessoas mais sábias do que eu escreveram sobre o ato de viajar. Mark Twain disse que a viagem é fatal para o preconceito, para o ódio e para a mente fechada. Kafka dizia que os caminhos são ao serem percorridos, e com ele concordava Santo Agostinho. Este aliás, ia mais longe, e colocou que se sua a vida é um livro, os que não viajam só lêem primeira página.
Assim parece ter sido para mim nesses 3 dias foras. Na verdade, tem uma sensação que na verdade, eu não só pulei páginas que já conhecia, mas que dei um pulo sem ler para algum capítulo aleatório e estranho. Eu não gosto de acreditar em destino (as vezes parece ser demasiadamene cômodo...) e prefiro acreditar, que na verdade deveria ter feito isso a muito tempo.
Uma mulher sábia me falou, vários anos atrás, que o mestre só aparece quando o aluno está pronto, e as lições são aprendidas no tempo que lhes é devido (também parece ser demasiadamente cômodo, as vezes), mas as vezes você tem de respeitar a conjuntura de fatores. Se Ele, Ela, ou a força primordial realemente existem Ele/Ela/Isso parece ter um senso de ironia dos mais fortes e (e por que não?) deliciosos. Campbell ia adorar. A toast to you, old teacher. Suas lições foram lembradas.
O fato, é que estou de volta. Passei por algumas experiências interessantes, de encontrar coisas únicas e ver escorrer outras por entre seus dedos, como areia na ampulheta. Enquanto as pernas andam, a mente se reorganiza sozinha, e pequenas coisas ditas inocentemente podem tomar proporções bem maiores do que elas próprias, e como num cubo mágico, de repente tudo pode clicar no lugar. Ironicamente, lhe mostrando o óbvio. "Plus ça change, plus c'est la même chose", diria Alphonse Karr. Quanto mais as coisas mudam, mais elas continuam as mesmas.
De uma forma similar as vezes, nos lugares mais estranhos, você pode reencontrar alguns pedaços seus jogados no chão, como se sempre estivessem por lá. Embora você os tenha jogado longe, anos atrás, e algumas dezenas de quilometros de distância. É bom estar de volta, igual ao que era quando saiu, mas certamente diferente.
O que me leva as reflexões sobre a Aura. Antes que alguém me acuse de místico (tenho notado uma certa tendência a filosofia neste blog nos últimos meses, mas de um lado pro outro tem um mundo...), me refiro aos escritos de Walter Benjamim. Resumindo em um pires, ele dizia que a obra de arte original possui uma "aura", um invólucro que a identificava como a original. Esse senso de Awe, de impressão forte ao contemplar uma obra de arte original viria como resquício dos tempos em que a arte servia apenas a um processo místico e religioso, e a reproductibilidade da arte teria acabado com isso.
Bom... no aspecto base da teoria, o maldito bastardo estava 100% correto: Existe uma coisa tangível, emocional e prímal em você poder assistir o show Live On Site da sua banda favorita. Não chego a dizer que é uma conexão com o místico no sentido literal, mas existe um resquício dessa mística que o Youtube e Ipods (ainda) não conseguem refazer.
Existe mais coisas que a obra em sí, mas sim todo um novo jogo de comportamento, e normas, que podem gerar determinados efeitos no espírito. Como quando vamos ao cinema e entramos na sala, são colocadas novas formas de sociais que se tornam aceitáveis, outras são colocadas fora da equação, e algumas outras novas são propostas. Prato cheio para os analístas, eu diria. Lacan adorava. Mas eu divago.
A minha teoria é que, sim, a Aura existe. Ela existe como derivado emocional dos antigos cantos para os espíritos, ou pinturas nas paredes das cavernas, ou danças sagradas para fazer chover e trovejar, ou o sacrifício de pessoas no topo de pirâmides irregulares, ou finalizar uma escultura de um Deus, whatever, que com a ciência, foi se perdendo para nós. Para o bem ou para o mal, a arte se separou do místico religioso a muitos milhares de anos. E eu acho que essa separação deixou um buraco na gente.
Hoje, eu diria que o que toca a alma e nos move, não está na obra de arte, mas ao redor. Ou seja, não está na música, ou na pintura, ou no livro, ou no filme. Está em nós, que nos deixamos levar pela mão, e que colocamos nossa alma para fora, e por um segundo, achamos que aquele filme, aquela pintura, poesia, trecho ou quadro, foi feito para nós, tenha ele surgido agora ou a 900 anos.
E isso não poderiamos fazer no conforto de nossos lares, com nossos mouse e controles remoto. Existe uma diferença em ver um filme no cinema e em casa num monitor, ter uma réplica de uma xilogravura de Rembrant na parede em relação a ir num museu, e olhar aqueles traços precisissimos com uma lupa. Ou escutar um show ao vivo no youtube a estar lá, uivando tão alto que os mortos poderiam se levantar, ou achar que seu espirito vai sair pela sua boca, a cabeça pulsando a cada respiração. E adorando cada segundo.
Momentos assim podem recarregar e ou curar almas feridas. Ou talvez não. Isso tudo pode ser um bocado de bobagem. Cada qual com o seu remédio...

Até a próxima semana.

Lobo.

7 Comments:

At 3:24 PM, Cleber said...

como diria os hindus: no show você tem prana ("respirar")...

Adoro a reprodutibildiade técnica, mas reconheço o prana das coisas. Cada qual com seu qual.

 
At 5:50 PM, Bernardo "garou" Queiroz said...

Meu conhecimento de hinduismo é rudimentar, at best. :)

 
At 11:30 AM, Cleber said...

Também, mas minto =)

Yin Prana, Yang prana... essas coisas =)

 
At 4:55 PM, Bernardo "garou" Queiroz said...

Kindred of the East: O seu sânscrito de amanhã hoje!

 
At 6:40 PM, Vanessa said...

Gosto de Jornadas. Dentro e fora. Gosto de partículas em movimento e tudo o que encerram.
Quanto mais me distancio, mais entro num território inóspito e, para alguns, inexpugnável... minha anima/essência/whatever... meu espelho.
Desejo a você, lobo querido, muitas e muitas jornadas. Todas, incomensuravelmente, reveladoras.
Beijos e tempestades! ;)

 
At 2:13 AM, Catsy said...

O que dizer, senão que... ora bolas, vc sabe. Ou deveria.
Mas pra ninguém dizer que não falei de flores...
Adorei a assinatura.
Luv thee.

 
At 1:54 PM, Nilson said...

Tirando as citações acadêmicas, teu blog me lembra dos meus tempos de adolescente. :)

 

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